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26.1.08

Caguei-me, e o Cágado levou a culpa.

A memória é uma ilha de edição, como já disse o poeta. Mas nem sempre a edição deixa de lado as coisas desagradáveis de nossa vida.
O episódio que conto hoje aqui ocorreu no início dos anos 1990. Pelo que lembro, foi em 1992, mas não estou certo, pois pode ter sido em 93 ou 94.

Uma vez por semana a turma da escola ia até a Biblioteca Pública Municipal de Itapiranga (Santa Catarina) para podermos pegar ou devolver livros e o mais interessante era ouvir histórias contadas pela bibliotecária chefe, dona Hildegard, a quem chamávamos de "professora Hilde", que lia livros de historinhas infantis para os pequenos alunos do primário.

A biblioteca fica a uma quadra do Colégio Estadual São Vicente, onde estudava, e íamos a pé para a seção de leitura, que durava, pelo que lembro, aproximadamente uma hora.

I ato

Em uma dessas idas à biblioteca, no meio uma das tantas histórias contadas pela professora Hilde, comecei a sentir alguns movimentos estranhos no meu intestino e em seguida uma movimentação estranha, acompanhada de uma baita dor de barriga. Isso mesmo, estava precisando desesperadamente ir ao banheiro.

Nunca antes havia rezado para que a seção leitura da dona Hilde terminasse logo. As dores aumentaram, até ficarem insuportáveis e eu ter que pedir para a professora para ir ao banheiro.

Saí da sala o mais rápido possível, só não corri pois, se tentasse, cagaria nas calças.
Cheguei ao banheiro, que ficava ao lado do prédio, perto de uma quadra de esportes. Abri a porta, afoito e contorcido, mas feliz por ter chegado. Mas havia uma pessoa sentada no vaso sanitário. Tive que tentar outra porta. Mais alguns passos, e a nova porta da esperança. Trancada. Mais alguns metros e encontrei uma porta aberta de um banheiro desocupado.

Abaixei as calças para finalmente sentar no tão procurado vaso sanitário. Não deu tempo! A coisa toda foi saindo e antes que eu sentasse, um pouco ficou na cueca.
Escatológico, eu sei. Mas foi assim.

II ato

Fiquei ali, sentado, esperando até que saísse tudo e a dor de barriga passasse, o que levou alguns minutos. E então que cometi um dos grandes erros da minha vida: tentei limpar a cueca ao invés de jogá-la fora.

Com papel higiênico e um pouco de água da torneira, limpei o máximo possível, deixei um pouco de papel seco na cueca, e fui embora, acreditando que estava perfeitamente limpo e inodoro. Pura ingenuidade.
Cheguei na sala de aula alguns minutos depois dos colegas de turma. sentei na minha cadeira, que era a penúltima antes da janela. Peguei caderno, lápis e borracha, para então, limpo e inodoro, como acreditava estar, ficar ali, na aula, mais alguns minutos, até poder ir pra minha casa tomar um banho.

III ato

Não demorou muito, alguns dos meus colegas que estavam sentado pertos de mim começaram a falar "prôfê, tem cheiro de merda!"; "é, também tô sentindo, professora"; "nossa, alguém deve ter cagado nas calças" completava outro. Foi aquele riso geral na sala.

Nesse momento, percebi que deveria ter jogado minha cueca fora. Que arrependimento!

Mas, por umas dessas coisas inexplicáveis da vida, naquele dia tinha um animalzinho na sala de aula, em um aquário na mesa da professora, que, por sorte, ficava bem na frente da minha carteira. Cágado era o bichinho que estava ali, andando e nadando em seu pequeno hábitat artificial.


Ao ouvir os comentários dos colegas, não tardei a dizer "ah, deve ser o cágado! Cágado, cagado!"

Alguns riram, alguns concordaram e outros olharam com desconfiança. Afinal, as evidências não apontavam para o pobre cágado, que estava desde o começo da manhã no aquário, sem exalar cheiro algum, e sim para mim, que saí da seção de leitura para ir ao banheiro, cheguei atrasado na sala e o cheiro de merda vinha da minha direção.

A professora foi até o cágado, olhou um pouco para o bichano e, para minha salvação, concordou que o cheiro deveria estar vindo do aquário.
O sinal tocou, avisando que a aula tinha acabado. Saí calmamente da sala, para não despertar desconfiança, pois, para todos os efeitos, o cágado havia cagado, e não eu.

No caminho para casa teve um colega que jurou ainda estar sentindo o tal cheiro, e olhou muito desconfiado para mim.
Consegui convencê-lo que eram as narinas dele que haviam ficado impregnadas daquele odor fétido.
Cheguei em casa tendo aprendido a lição de se ocorresse fato semelhante de novo, me livraria da cueca e pronto. Mas, apesar de tudo, estava feliz da vida, afinal, caguei nas calças e o cágado levou a culpa.
____
Por Marco Vicente Dotto Köhler.

5 comentários:

Elton555 disse...

Cara! Esse texto é uma das coisas mais legais que eu já li. Simples e só isso!
Muito bom!
Muito bacana!
Abração

Mau Haas disse...

hahahaahahaha.....iiiiiiiiii..... hahahahahahahahahahahah......iiiiiii.....hhahahahahahahah...

Muita massa essa história bicho!! Não sabia desta tua passagem da vida....

mas foi muito massa.... Só pode ter sido o Keu que falou que tinha cheiro de merda.... é a cara dele....

E essa de levar uma hora pra chegar na Biblioteca, eu levava duas, eu acho... hehehehe

Massa mesmo era ouvir as histórias de Beto e Brasa que a profe Hilde contava... cheguei a comprar a coleção... acho que tenho até hoje...

Falo caboquito!!!
Té mais!!!

JKishin disse...

Há, a melhor lição do dia foi: "Sempre tenha em mãos um bode expiatório".
Ou seria um cágado? hehehe, acho que eu não seria tão esperta, eu era uma criança bem burrinha, sabe?
;D
bjinhos

Christine Wesendonk disse...

HAHHAHA. Que merda! Parece a história da semana passada. Mas sem cágado. hahaha...

Altos texto, Kinhales.

Aline Wernke disse...

E a corda sempre arrebenta do lado mais fraco hahahaha