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21.11.12

Acabou


As harmonias e melodias
Já foram todas compostas.
Os vãos de versos
De todos os tempos
Já foram preenchidos.

Heróis e ídolos todos
Foram deixados para trás.
Todas as belezas já foram apagadas.

Até a claridade perdeu
A beleza de clarear.
Não mais trás a luz,
Mostra as trevas
Das sombras, agora reveladas.

Não há mais o que ser feito,
Nem sombras onde se esconder.

Ande sob o sol.
Ande em círculos
Na busca pelo oásis,
Da sua miragem distorcida.

Beba sua água de areia,
Contemple tudo o que há!
Não há nada mais a ser feito.

___
Por Marco Vicente Dotto Köhler, dois mil e...

20.11.12

Sem fim...


te espero até tarde da noite,
até descobrir que você não irá ligar;
te espero por toda a vida,
para, quando finalmente encontrar,
perceber que você não virá!

olho para o espaço reservado para você no meu coração,
e ele continua vago;
percebo que você não quer estar aqui.

outra manhã se desenha e te espero até o anoitecer,
para perceber que você não estará aqui, nem aí,
nem em lugar nenhum;

te procuro em todos os lugares,
sabendo que não vou te encontrar,
mas a busca é tudo que tenho,
e não tenho nada sem você aqui;

já deveria ter aprendido há tempos que seria assim;
no fundo sempre soube qual seria o fim.
mesmo assim não canso de tentar encontrar
em algum lugar algum você que queira estar aqui...
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Por Marco Vicente Dotto Köhler, em...

23.7.12

Insônia


Minha esposa tem insônia. Eu, estando quieto e escuro, durmo bem. Ela, não. Demora para dormir. Demora para querer dormir, eu acho. Não é tanto falta de sono, pelo que observo, e sim falta de vontade de dormir, de fechar ir para a cama, fechar os olhos e desligar as luzes daquele dia, esperando pelo próximo. Parece até que anseia por algum acontecimento ainda naquele final de dia, mesmo que já iniciado o dia seguinte, no relógio, pelo menos.
Apesar de já estar acostumado a isso, e a muitas vezes no meio da noite acordar e ela estar acordada, lendo ou vendo TV, no mudo, para não atrapalhar meu sono, somente para ter alguma coisa com que se distrair – ao invés de tentar dormir –, noites atrás aconteceu algo muito estranho, beirando a bizarrice.
A coisa foi estranha a tal ponto que até eu, bom de sono, não consegui mais dormir, tamanha foi a crise de riso que sofri.
Locomotiva?
Como quando estamos sonhando com algo por interferência de algum estímulo externo, normalmente algum barulho que acaba fazendo parte do sonho, nessa noite meu sonho foi acometido por barulhos um abafados, mas constantes e bem cadenciados, como um pistão acolchoado batendo em algo carpetado ou emborrachado, somado a uma espécie de válvula de escape de máquinas a vapor, mas sem estridente, só o vazar de vapor, com pouca pressão.
No meu sonho isso foi transformado em uma locomotiva, que, com o tempo, acabou me tirando do sono e me trazendo à tona, à cama, ao despertar.
Mas... que som era aquele?
Surpresa mesmo foi continuar ouvindo aquele som.  Ao vascular a cama e perceber estar só, virei para o lado de onde vinha o barulho e percebi, surpreso, que a onomatopéia a locomotiva era minha esposa, ao lado da cama, com pés de pistão e escape de respiração.
Não pude conter o riso ao vê-la ali, com uma concentração perturbadora, fazendo polichinelos aos pés da cama, enquanto olhava para a televisão sem som, com um pássaro de cabeça vermelha e olhos loucos fazendo atrocidades com um funcionário das empresas de telefone, que tinha os postes devorados pela árvore.
O que foi? Nunca viu alguém fazer isso antes?
Mas devorada mesmo foi a concentração dela pelo meu riso, que fez com que parasse de polichineliar e começasse a questionar:
 - o que foi? Nunca viu alguém fazer polichinelos antes?
 - já, claro que sim – respondi, em meio a gargalhadas.
- então, ta rindo de quê – o “de quê” foi dito com perigosa ênfase de mulher irritada, com as mãos na cintura e olhar amedrontador.
- é que... é que...
- para de rir!
- ai.. é que... – não tinha como responder àquela pergunta, era engraçado demais para ser inteligível e colocado em palavras.
- então!   Não vai me dizer onde está a graça? Ta rindo de quê?
- polichinelos! Isso é demais! Minha nossa!
- vai dormir, vai! E para de me incomodar!
- sim, vou tentar, mas... polichinelos?
- é, e daí?
- daí, que... ah... para de perguntar, que ta doendo minha barriga, de tanto rir... ah! Polichinelos! Rá rá!
- ai que saco! Não posso nem fazer polichinelos que já sou motivo de chacota e deboche!
- chacota? Deboche? Rá rá! Polichinelos!
- ai! Vou dormir! Deu!
- polichinelos...
Por fim, ela dormiu, e eu não consegui mais, pois a imagem dela fazendo polichinelos (po-li-chi-ne-los!!) foi demais para um mortal como eu conseguir voltar a dormir...
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Por Marco Vicente Dotto Köhler, julho de 2012