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11.10.11

Escritos de caderno

Já que o sono não vem, o jeito é publicar velhos escritos de velhos cadernos...

Incorrigível...

Uma coruja me observa lá fora
Observo o que se passa aqui dentro
E me flagro de novo pensando em você

A coruja voou
Eu queria voar até você

A chuva varre dos céu nossos sonhos terrenos
Escrevendo poesias inúteis fico do lado de fora
Assistindo de um camarote incômodo
Ao que acontece no mundo que gira à minha frente

Sou viciado em rir, porque sou triste
E há muito se confunde riso e felicidade
Sonhador incorrigível, me acostumei
A muros altos e horizontes inalcançáveis.

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Por Marco Vicente Dotto Köhler, 2000 e...

10.9.11

Atualizações para um defunto amigo

Hoje faz 7 anos que Darlan, meu primo e irmão, morreu. Sim, dizem que vamos dessa para uma melhor. Assim espero.















Foto: Maurício Haas (foto da foto e porta retrato, meus hehe)


Carta a um amigo distante (ou não)

Escrevo hoje para ti, meu amigo, para, caso não saiba, ficar por de
ntro de alguns ocorridos desde que você "zarpou", como dizia o Chico, lembrado dias atrás pelo nosso amigo-irmão Mau.
Não é uma atualização do tipo retrospectiva, da Globo, é mais pessoal, é sobre o que imagino que você realmente gostaria de saber.



Vamos lá:

em 2005, o Internacional foi, finalmente, após quase três décadas, Campeão Brasileiro de futebol, mas não levou. Teve um tapetaço, escândalo de arbitragem e um favorecimento escancarado do Corínthians, que, após escandalosa passividade da mídia, foi considerado o campeão brasileiro, sem questionamentos.

Quer dizer, até teve, na "Justiça", a favor dos interesses do Inter, que foi ameaçado de não poder participar de nenhuma competição oficial, e, pasme, revire-se mais ainda de ódio, e de, caso levasse adiante aquele "impropério" contra o todo poderoso Ricardo Teixeira e o curíntia, impediria também o Brasil de participar da Copa do Mundo da Alemanha, no ano seguinte.

Bom, 2006 foi um ótimo ano: Lula foi reeleito Presidente do Brasil, e o Inter sagrou-se Campeão da Libertadores da América, com dois jogos épicos nas finais contra o São Paulo, com direito a narração do Pedro Ernesto Denardin em que sentencia, após gol de Rafael Sóbis, que o Inter rasga e pisa na camisa do São Paulo. Épico, emocionante, simplesmente demais. Pena não ter visto aqui desse plano terreno, Darlan.

Ainda em 2006, Justiça foi feita e o Corínthians foi rebaixado à segunda divisão, com ajuda imprescindível do Inter e, para nossa surpresa, também do co-irmão Grêmio.

No final do ano, nosso amado Colorado venceu o todo poderoso Barcelona na final do Mundial Interclubes, em Tóquio. Foi espetacularmente bom vencer o melhor time do mundo, ainda mais por não deixar o gremista Ronaldinho Gaúcho manchar esse momento histórico do Sport Club Internacional.

Quanto ao Brasil na Copa... bom, melhor se não tivesse ido. Foi deprimente, de dar sono. Acabei torcendo para a Argentina e depois para a Itália.

2007.... não lembro muita coisa interessante desse ano para te contar. Ah, sim! Passei em um concurso público e agora sou Servidor do TJ em Lauro Müller, onde muita gente tem saudade de ti.

Depois disso, acho que você gostaria de ter ido ao meu baile de formatura desse que vos fala, talvez ido junto a uma viagem de bicicleta que fiz parcialmente, pois acabei voltando antes do planejado.

Em 2010, o Inter foi novamente campeão da Libertadores, vencendo o São Paulo nas semi-finais e o poderoso... não lembro, do México, na final. Foi muito bom, com direito a carreata com 3 carros em Lauro Müller (carreta essa três vezes maior que a de 2011, quando vencemos o campeonato Gaúcho, com "carreata de um carro só", mas com muito amor, barulho e bandeira hehe).

ah! Espanha campeã do mundo de futebol, com um futebol de dar gosto de ver... simplesmente moendo a pau!

O PT continou na Presidência da República, elegendo Dilma Roussef a primeira mulher Presidenta. Até agora, parece tudo nos conformes, apesar das tentativas virulentas da direita, que não se conforma....

Agora fiasco que ainda bem que você não esteve aqui para sofrer com gozações de gremistas, principalmente as que sofreria por parte do Mau, que iria te sacanear muito: o Inter foi para as finais do mundial, que é disputado com 4 times, vencedores disputam a final. o Inter perdeu para o espetacular Mazembe, do Congo, no que foi chamado de "Mazembaço" e rendeu aos gremistas o título de torcida mais feliz do ano. Pois é...

Em 2011, os EUA mataram o Osama Bin Laden e jogaram o corpo no oceano. Vai saber, né?. ah! elegeram um presidente democrata, finalmente, e é o primeiro negro da História a assumir tal posto. Espero que se reelega para ter tempo de cumprir a promessa de extinguir Guantánamo.

Resumão

Enfim: o Dani, meu primo-irmão e teu irmão de sangue, casou com a Eve, que acho que você conheceu, e nesse ano compraram uma casa e daqui a pouco ele se forma na faculdade. Tua mãe graduou-se pedagoga, dois anos atrás. O Chico casou com uma baiana muito querida, a Sil, e moram em São Paulo, em Barueri, se não me engano. a Mari casou e descasou e tá melhor agora, na minha opinião. A Débora também casou e é mamãe. o Gabri também casou e tá "xonado". o Elton casou e cobre motocross, junto com o Mau, que não casou e continua gremista! =D

Bom, acho que é desnecessário dizer que a vó Rosa morreu, pois certamente estão lendo esse texto fajuto juntos. Aproveita e manda um beijão pra ela.

O que faltou

Certamente faltou falar muito das catástrofes climáticas, de uma crise financeira que quase repetiu a de 1929, de alguns escândalos de corrupção, de malucos que entram atirando em escolas, de enormes quantidades de drogas apreendidas, enquanto o tráfico continua a aumentar seu poderio, de erros de arbitragem a favor dos clubes de São Paulo e do Rio; faltou falar do Itaquerão, do Ricardo Teixeira, do show dos membros restantes do Led Zeppelin, e de muito mais.

Constatação

Na verdade, agora que acabei de escrever, acho que os fatos a que dei mais importância não foram os que creio que tu perdeu, mas sim os momentos que eu gostaria de ter compartilhado contigo, aqui, no mesmo plano, pois sei, no fundo, que tu sabe de tudo isso que te contei e mais um pouco, e que, de uma forma ou de outra, estava aqui dando gargalhada nas horas boas, nos dando força nas ruins e trazendo calma nas horas de raiva.

Então, quem sabe, até dezembro de 2012, quando dizem que o mundo vai acabar. o problema é que vai ser tanta gente morta ao mesmo tempo que vai ser difícil te encontrar. Qualquer coisa, nos encontramos pairando onde hoje é o Beira Rio.

Um Grande Abraço, do primo-irmão, Marco.
10 de setembro de 2011.

Ps.: Darlan, me desculpe, mas, sim, Tangerine é linda, mas Stairway to Heaven mata a pau! =D

7.9.11

Prorrogador de prazeres.

Essa expressão, "prorrogador de prazeres", é atribuída ao personagem principal do filme "Vanilla Sky", de 2001, refilmagem de "Abra os Olhos", original espanhol de 1997.

Às vezes penso que também sou uma espécie de prorrogador de prazer, que gosta de adiar o prazer, curtir o momento que vem antes.
Refiro-me ao prazer latu sensu, sem restrição à provável conexão que o leitor fará com o prazer sexual.

Falo do prazer em provar um capuccino de Alpino, que há muito desejo e finalmente comprei; do prazer em andar de bicicleta após tempos impedido por algum problema físico; de jogar futebol com a bola nova que ganhei no natal passado, etc., e, também, claro, o momento anterior ao orgasmo, certamente também é de um prazer imenso, que merece considerações à parte.

Enfim, esse texto é sobre uma moto. Ter uma motocicleta é sonho antigo, que finalmente consegui realizar. Mas ainda não está realizado por completo. A moto está na garagem, paradinha, esperando pela primeira volta nas ruas com seu novo parceiro.

A causa principal de ainda não ter andado é a chuva, que não tem dado trégua. Mas estou curtindo esse clima pré-prazer, que, espero, dará ainda melhor sabor e mais gosto ao momento da primeira motocada por aí.

E você, é também um(a) prorrogador(a) de prazer?


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Marco Vicente Dotto Köhler, setembro de 2011.

17.8.11

Sinapses emocionantes...

Sempre que ouço "Hey Jude", dos The Beatles, sou invadido por uma tristeza nostálgica, de um aniversário meu.

O estranho é que lembro somente de uma imagem: eu sentado no chão da sala de nossa casa em Itapiranga, pelos idos de 1993, talvez 92, ou 91....

Enfim, a lembrança é de um momento bem estranho, em que eu estava sozinho, brincando com carrinhos que ganhei de presente de meus pais, tios, amigos... não sei ao certo se havia alguém na cozinha, ou outra parte da casa, mas creio que sim, mas era (é, ainda, na lembrança) um sentimento de completa solidão, e a música, provavelmente tocando na rádio, era Hey jude.

Estranhas essas sinapses que nos trazem sentimentos dos mais variados, que nos tomam de assalto, sem mais nem menos, às vezes através de uma música, um cheiro...

O importante, creio, é que faz parte da vida, e acaba nos lembrando de quem fomos, e como viemos parar no que somos....

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Por Marco Vicente Dotto Köhler, 17/08/2011.

13.8.11

Quando Fomos Heróis!

A época do ano era convidativa para aventuras, sonhos e desafios. Fim de ano, família reunida... tios, tias e avós, todos naquela alegria de quase fim do ano, de quase novo ano... eram almoços com muita conversa da família de descendentes de italianos, melancia no meio da tarde, à sombra da frondosa árvore no quintal da casa dos meus avós.

Mas o que importava mesmo eram os primos que vinham passear uma vez por ano, quando curtíamos a valer nossa infância, jogando futebol, andando de bicicleta ou fazendo guerra de polícia contra bandido, na marcenaria do meu avô, que ficava junto a casa, onde pequenos cubos de madeira magicamente se transformavam em granadas, onde três pedaços de madeira, encaixados, quando eram do tipo que se faz paredes, ou pregadas, mais alguns pregos extras e simplesmente sofriam mutações e viravam revólveres, espingardas ou metralhadoras, com gatilho e mira feita com pequenos pregos.

A brincadeira consistia em nos dividirmos em duas equipes, uma de bandidos, outra de policiais, e um grupo deveria ficar dentro da marcenaria e protegê-la da invasão contrária. Era demais! Simplesmente incrível.

Primeiro Ato – O Heroísmo

Talvez essa vocação de policial nos fez tentar algo de heróico em uma daquelas tardes ensolaradas de dezembro, em Itapiranga, aquela cidade cercada por morros e à beira do Rio Uruguai, na divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul e com a Argentina, onde fazia um calor infernal.

Mas não nos importávamos. Embarcávamos em nossas naves movidas a pedais, com duas rodas aro 20 , que os mortais de visão estreita chamavam simplesmente de bicicleta!

Andávamos pela cidade, normalmente pela Avenida Uruguai, à beira Rio, quase sempre em grupos de em três, quatro, cinco...

Em um desses passeios, aconteceu algo inédito, que nos encheu de adrenalina: dois cidadãos largaram discretamente um saco na beira da calçada, em um lugar entre árvores e com capim relativamente alto, olharam em volta e seguiram adiante.

Nós, á distância, achamos curiosa a cena e a atitude dos dois, e paramos para conferir o que eles haviam largado lá.

Para nosso espanto, era um saco plástico contendo um pó branco, um tanto amarelado. Deixamos o saco ali, e seguimos adiante, fomos até o final da avenida, a uns dois quilômetros dali, e retornamos, pegamos aquela sacola e fomos para o quartel general: a marcenaria do meu avô, onde as indagações começaram de verdade.

O que seria? Cocaína? Heroína? Farinha de trigo? De quem era? Por que havia sido largada lá? Seria uma entrega mal planejada? Para quem seria? O que deveríamos fazer? Voltar lá e deixar onde estava? Não, isso não mais era possível, poderíamos ser descobertos, afinal, o local deveria ter sido previamente combinado com o suposto comprador... e ele poderia chegar lá no momento em que devolveríamos, o que seria nosso fim!

Segundo Ato – O Reconhecimento

Estávamos encrencados! Contaríamos a nossos pais? Certamente, não. Afinal, éramos os heróis, naquele dia.

Imaginávamos recebendo medalhas de honra por ter evitado que drogas chegassem às ruas, e quem sabe conseguiríamos desmantelar uma quadrilha de traficantes!

Depois de muito pensar, decidimos abrir o saco e tentar descobrir o que era. Abrimos com cuidado. O cheiro era forte, mas não nos era familiar. Farinha, com certeza não era. Como não conhecíamos muito além de farinha de trigo e de milho, maisena e polvilho, poderia mesmo ser realmente algo importante que encontramos lá.

Feita a análise, por nós, cinco garotos com experiência de vida entre 7 e 9 anos... de idade, decidimos ir à delegacia e entregar o produto do crime ao delegado, que, em nossa imaginação, nos parabenizaria pelo ato heróico, chamaria a rádio e o jornal local, o prefeito, o promotor de justiça, juiz e quem mais fosse para a cerimônia de honraria aos heróis mirins de Itapiranga.

Chegando lá, os cinco heróis, Darlan, Daniel e Kéu, meus primos, e Dengo, meu amigo e vizinho da minha avó, mais eu, (esse era o grupo, se minha memória não estiver me traindo, novamente) fomos logo perguntando pelo Delegado de Polícia, com a euforia característica de um herói em seu primeiro ato.

Questionados a respeito do motivo de estarmos ali, erguemos o tal saco de pó desconhecido, em uma atitude quase de quem levanta um troféu. Um troféu pequeno, talvez meio quilo ou um pouco mais.

O policial que nos atendeu perguntou o que era aquilo, e contamos a história a ele, um interrompendo o outro, com a felicidade de quem está ajudando a humanidade a salvar-se da maldade.

Um tanto incrédulo (para não dizer completamente), o policial chamou o Delegado, que nos questionou sobre os detalhes de como conseguimos aquele saco com aquele pó, e sobre como eram os dois supostos traficantes que teriam largado a “encomenda” no “ponto de entrega”.

Nos acalmou, dizendo que poderíamos ficar tranquilos, que apesar de ter perguntado e anotado nossos nomes e os nomes dos nossos pais, não estávamos correndo qualquer risco. Seria uma investigação sigilosa! Essa palavra acendeu novamente nossa honra de heróis!

Saímos dali com a sensação de dever cumprido.

Terceiro Ato – A Descoberta

À noite, quando minha mãe, chegou em casa, já sabia do ocorrido. O Delegado avisou nossos pais, o que não era nada bom, pois levei um sermão interminável sobre os riscos de se fazer o que fizemos. Ouvi, impassível, ainda orgulhoso do que tínhamos feito, argumentando que poderíamos estar ajudando a polícia a prender bandidos, o que era compreendido por ela em termos de “se meter em encrencas”.

No dia seguinte, ficamos proibidos de sair de bicicleta. Era nossa recompensa pelo ato heróico. Ficamos em casa, imaginando ainda os frutos que poderíamos colher da atitude mal compreendida, afinal, todo herói é posto em dúvida em algum momento.

Dias depois, minha mãe deu a notícia que tanto aguardávamos: o que tinha naquele saco?

- era enxofre, meu filho! - disse ela, com um ar de tranquilidade que até pouco tempo não compreendia.

Então, foi isso. Salvamos a humanidade do terrível mal destruidor de um saco plástico com enxofre!

Mas, apesar do revés, ninguém pode tirar de nós aquele sentimento de dever cumprido, nem duvidar de que, naquele dia, fomos heróis!

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Por Marco Vicente Dotto Köhler.